terça-feira, 26 de outubro de 2010

Revolta

Os dias passam rapidamente me atropelando, não sobrando tempo para pensar, nem para escrever. Os conflitos se multiplicam no bairro, tantos, que acabo sem saber realmente por quem lutar ou contra quem lutar. Às vezes, acho que meu inimigo é o Estado, irresponsável e cego na sua percepção equivocada e superficial dos problemas, às vezes, acho que é a burocracia, fria e estática, como um muro quase intransponível à minha frente, outras, acho que é a falta de vontade de lutar . Suspiro e penso :"será que sou eu o problema? Que já estou cansada e doída de tanto brigar?". Olho à minha volta e lembro da menina, ainda adolescente, que chegou drogada na maternidade para ter o filho prematuro. Aquela que segurava o filho como se fosse uma "coisa", sem vida, sem necessidades. Um dia me ligaram na Unidade para avisar que essa menina ─ mãe-menina ─ drogada e discutindo com o marido, acabou deixando cair a criança, que, com seus dez dias de vida, estava suja e desleixada, igual à mãe. A enfermeira foi ver a situação do bebê, enquanto eu ligava para o Conselho Tutelar. Bem, na casa de uma vizinha, já havia sido alimentada e dormia. No dia seguinte, o Conselho Tutelar foi até lá e levou consigo a criança. O outro filho da menina, um pouco mais velho, mas de apenas dois anos, ficou. Disseram, o Conselho Tutelar, que ele não precisava ir por não sofrer risco de morte. Fiquei sem entender.
Para reaver a criança, deram ordens para que a mãe se tratasse por três meses da dependência química, já que os avós, pais dela, não quiseram se responsabilizar pelo menino.
Como estava drogada na hora que levaram o filhinho, a mãe só foi sentir falta dele no dia seguinte. Aí, chorou, xingou, acusou os vizinhos de chamarem o Conselho, antes de se conformar e, mais calma, se comprometer com o tratamento. Tratamento? Como e onde? A única política pública para o viciado aqui é a cadeia, tratamento esse inevitável, quando o viciado não morre antes.
Eu é que sei de criança que vai até Boca de fumo para comprar droga pra mãe. Vejo gestantes vagueando pelas ruas, quando deveriam estar fazendo o pré-natal, buscando apenas formas de ganhar dinheiro para comprar sua droga. Ouço mães desesperadas me pedindo ajuda para seus filhos, desaparecido nas noites, zumbis, carregando o que conseguem pegar ou roubar para trocar por cocaína. Vejo mulheres que buscam seus parentes sumidos e enfrentam, corajosamente, os traficantes. E permaneço muda, as mãos atadas, sendo um nada.
Minhas palavras de encorajamento e solidariedade soam ridículas diante do sofrimento de mil mães. Sei exatamente o que elas sentem e onde essa busca vai acabar. Nós todas sabemos. Esperam de mim uma resposta, uma saída que eu não posso dar. Por minha vez, quero delas uma coragem e força que não tenho.
Assim, cada uma continua seu caminho e sua luta. Feitas da mesma dor, elas choram lágrimas que meus olhos não conseguem derramar e eu carrego a semente da revolta que elas desconhecem.
Mãe-meninas caminham com suas barrigas grandes e seus meninos nos braços, jovens que conheci ainda crianças . Prisioneiros da liberdade. E sou eu a mera coadjuvante nessa luta de cartas marcadas, onde só existe um vencedor. Ao outro, resta viver. Sem dignidade, sem respeito, sem ideais, apenas sobreviver ao dia a dia. Perdeu sua família, amigos, emprego, perdeu seu orgulho, sua capacidade de amar. Seus olhos vazios, sem sentimentos, sem revolta, sem expressão e sem alma ,refletem o nada.

domingo, 23 de maio de 2010

INQUIETUDE

Dona M. vem adentrando pelo portão da Unidade, é baixa e troncuda, usa o cabelo preso num coque na nuca, tem os lábios finos e crispados e seus olhos parecem duas fendas horizontais. Quando a vemos aproximar-se, a vontade é de nos escondermos até ela ir embora, como se isso fosse possível! Ela não desiste fácil quando quer alguma coisa. É uma pessoa difícil, muito difícil, de lidar. Tem distúrbio mental e postura agressiva, embora nunca tenha agredido fisicamente ninguém na Unidade e acho que também não o fez em outros lugares. Em compensação, verbalmente, o faz a toda hora e a todos, nesse ponto é bem democrática. Nada a detém quando quer falar com alguém: várias vezes invadiu o meu consultório em meio a uma consulta porque queria ser atendida na hora, sem esperar. Tem um linguajar um tanto chulo, o que agride os outros pacientes, deixando-os constrangidos com sua presença. Certa vez, após uma perineoplastia, colocou na cabeça que o ginecologista a tinha costurado completamente, inclusive sua abertura vaginal. Foi muito difícil convencê-la do contrário, fiz de tudo, mas não consegui. Soube depois que ela foi até o Hospital onde havia sido operada e fez um escândalo. Outra vez, falou na sua casa que a enfermeira da Unidade que havia feito o seu CCO havia esquecido o espéculo dentro dela. As filhas, que não moram no bairro, vieram reclamar, mostrei-lhes o espéculo e perguntei se elas achavam possível esquecer esse instrumento dentro de alguém e essa pessoa conseguir levantar-se e ir embora depois: pediram desculpas. Dona M. continua aprontando aonde vai, vários hospitais e médicos se recusam a atendê-la . Apesar de fazer tratamento psiquiátrico, acaba não utilizando, ou fazendo-o incorretamente, os remédios. Para que conseguisse uma cirurgia oftálmica, teve que recorrer à justiça, pois os hospitais de referência não queriam atendê-la se não estivesse completamente controlada e medicalizada. Nessa época, ia constantemente na Unidade porque queria que eu telefonasse ao juiz e pedisse que apressasse o seu processo. E, por mais que eu explicasse que não tenho esse poder, ela não se conformava.


Um dia, estava tranquilamente terminando o meu atendimento quando recebi um telefonema da outra Unidade do mesmo bairro: queriam que eu entrasse em contato com a família de Dona M. porque ela havia tido um "surto " lá e o colega havia chamado a ambulância do hospital psiquiátrico para levá-la internada.Conseguimos localizar suas filhas e fui depressa para lá. Ela estava nervosa, xingando todo mundo, tentei acalmá-la, logo a ambulância chegou e, na mesma hora, suas filhas. Foi uma gritaria que acabou fazendo com que as filhas não deixassem que a internassem. Algumas poucas vezes, ela está calma e alegre. Nessas ocasiões, apelida a gente com nome de bichos: coruja, garça, e outros, e explica o porque de cada apelido, nós morremos de rir. Numa dessas vezes, carregou-me no colo e saiu andando para mostrar o quanto era forte, me deixando apavorada.
Sua chegada em qualquer lugar é pertubadora: questiona sua vocação, testa sua paciência, seu equilíbrio e sua capacidade de controle. Quando vejo seu vulto ao longe, quero desaparecer, principalmente quando não estou nos meus melhores dias. Mas não adianta fugir e tentar ignorar sua existência, ela existe e continuará vindo, xingando e exigindo respostas que não podemos dar, algumas justas, outras um tanto descabidas, sempre com seu jeito insistente e pertubador de ser. Seus olhos apertados transmitem uma revolta insana, eloqüente, assustadora. Mas ela existe e necessita de cuidados e, como profissionais de saúde, não podemos ignorá-la, não podemos apagá-la, temos que acolhê-la , suspirar fundo, engolir em seco, mas acolhê-la.


Outro dia no ônibus, a caminho de casa, a vi andando na rua e fiquei fitando-a enquanto caminhava. Falava sozinha, segurando uma sacola onde leva sua história. Daquele ângulo, parecia tão pequena, tão indefesa, sozinha no mundo dos que se dizem sãos, dos que não a toleram por ser diferente, por não ter padrões, por nos deixar confusos e sem respostas. Senti-me pequena e inacabada, como profissional e como ser humano. Vi-a atravessar a rua com seu diálogo consigo mesma, com seu eu, que a ouve e que compartilha de seus delírios. Afastou-se com seus passos rápidos e decididos, enquanto permaneci silenciosa e apagada na minha distância segura.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

AOS VELHOS AMIGOS QUE PARTIRAM:

Este ano está me levando várias vidas. Vidas queridas, vidas vividas. Estão indo embora os contadores de histórias, de histórias reais e sofridas, mas contadas com a graça e a sabedoria de quem soube vivê-las e aproveitá-las, cheias de risos e detalhes , cheias de suor e trabalho. A infância dura na roça, a luta pela sobrevivência, o casamento, os filhos, os netos, e, muitas vezes, a solidão e o abandono. Seus olhos opacos pela visão entorpecida, seus corpos curvados, seus rostos qual terra que endureceu, seus dedos sulcados pelo arado do tempo. Seus sorrisos, ás vezes contidos pelas agruras a que foram submetido, outras vezes fartos como o das crianças, mas sempre presentes.Chegavam com suas bengalas, seus chapéus de palha, suas sacolinhas cheias de remédios e receitas, muitas vezes tão antigas , já indecifráveis, que teimavam em guardar. Não entediam essa língua de horários e receitas, de consultas e de remédios, iam na Unidade como quem vai visitar um amigo íntimo: não seguiam horários pré- determinados para nada, iam consultar quando achavam que deviam, tomavam os remédios quando lembravam e comiam o que podiam comprar. Riam da nossa teimosia insistente ao lhes dizer até o que comer e o que não comer , como fazer a comida, o horário que deviam acordar e dormir. Riam. Muitas vezes só no seu íntimo, mas riam. Ouviam-nos ás vezes calados, mas determinados a construir o resto de suas vidas do jeito que bem entendessem. Pelo menos agora, que já não existia mais compromissos com a vida dos outros, sem filhos pra criar, sem chefes para obedecer, sem enxadas para se curvar,seriam, finalmente, donos do seu fim. Iam-se com seus passos incertos, suas sacolas e bengalas, os lenços nos cabelos brancos, os pés endurecidos pela longa caminhada, a pele arada, curtida pelo sol, seus olhos de poeira(o pó de lembranças cobrindo o olhar), o riso parado no tempo . Seguiram o caminho determinado e construído pela vida, o caminho que conheceram a vida inteira e que é parte de sua construção como indivíduo. Seguiram, passos lentos e cambaleantes, para nunca mais voltar.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Minha história se confunde com a dos meus pacientes, não sei mais se é minha mesmo ou se algum deles me contou e, naquele momento, as nossas vidas se misturaram e pensei ter vivido o que não vivi. Espero, de verdade que não seja minha, seja apenas de uma cabeça confusa de tantas histórias e cansada de tanta vida. Gosto do meu trabalho, de curar doenças e ouvir histórias: algumas tristes, outras engraçadas. Hoje peguei um táxi, voltando da Universidade Federal, onde estudo Ciências Sociais, e quando sentei, o motorista me disse:

_E aí, doutora, tudo bem com a senhora?
_ Tudo bem.
Respondi sem muita certeza de quem era meu interlocutor, afinal só via um perfil. Aparentava mais de cinqüenta anos, magrinho e baixinho. Até que continuou:

_ A senhora se lembra de onde me conhece?

Arrisquei:

_ Lá do Novo Paraíso. Mas o senhor mudou de lá, não foi?

_ Não, doutora, ainda moro por lá. A senhora é nossa médica, atendeu até meu netinho essa semana. A senhora lembra que me encaminhou pra tirar um tumor no braço? Fiquei bonzinho! E sabe os meus meninos que trataram de Hanseníase lá no postinho? Um deles já acabou o tratamento e sarou mesmo.

De repente lembrei de toda a família e da história de cada um e,também, que ele não aparecia há algum tempo na Unidade. Aproveitei para cobrar-lhe uma ida para ver se estava tudo em ordem com a sua saúde. Respondeu-me que estava bem graças a mim e me agradeceu por cuidar da sua família. Chegamos na minha casa, desejei-lhe um bom final de semana e desci. Fiquei pensando na nossa conversa e em como é gratificante ser médica de família. De repente o cansaço passou e veio uma sensação de bem-estar, de dever cumprido. É, acho que ainda tenho que continuar, que ainda sou útil. Desafaço-me das histórias que povoam minha cabeça como quem limpa a poeira de um móvel e elas se dispersam no ar. Podem ser minhas, podem ser de outras vidas, ou de outras pessoas, não importa agora. Somem com o vento. E, por alguns instantes, não tenho mais histórias, sou leve. Sem marcas, sem lembranças, sem passado e sem futuro, apenas sou.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A HISTÓRIA DE R.

Era um senhor forte, a barriga proeminente, mas tranqüilo e sorridente. Tratava há vários anos de hipertensão e diabete, tinha mais de 65 anos e um sorriso largo no rosto. Era casado e morava com sua esposa numa chácara na periferia do bairro. Ela também tratava de várias patologias, além de depressão Vinham sempre consultar , embora seu R. nem sempre seguisse as recomendações e o tratamento correto para as suas doenças: não emagrecia, gostava de um docinho, e quando viajava, então, era um problema, esquecia que tinha Diabete. Outra coisa difícil era convencê-lo a usar Insulina, dizia que preferia morrer a ter que tomar injeção todo o dia. Isso dificultava muito o controle de sua doença, mesmo ele tendo consciência de todas as complicações decorrentes dela.A penúltima vez que viajou para o Pará, há mais ou menos 2 anos, chegou na Unidade com uma glicemia altíssima, tivemos que encaminhá-lo ao Pronto Socorrro para controle. Gostava de presentear a todos da Unidade com limões que tinha na chácara, e eram muitos, além de trazer mandava que fôssemos lá buscar a hora que quiséssemos. Sua esposa, por sua vez ,me dava de presente doce de limão em calda que fazia e trazia nos potes de vidro enfeitados.A última vez que o consultei estava com a glicemia alterada e a auscuta cardíaca não estava das melhores, preveni-o para ter cuidado, ajustei o medicamento e encaminhei-o ao Cardiologista para avaliação, logo depois entrei de férias. Semana passada, Leci, técnica de enfermagem da Unidad, me ligou e disse que o sr. R. havia sofrido um enfarte fulminate no fim de semana, e não havia resistido. Fiquei consternada e sem palavras, gostava muito daquele teimoso. Vejo sua imagem sorridente carregando uma sacola de limões para nos presentear. Foi-se pra sempre, fez sua derradeira viagem de forma rápida e decidida como era seu perfil.Quando retornei ao trabalho, me depararei com sua ausência, não sei se inevitável, não sei se esperada,mas para mim é sempre uma partida única , é sempre um gosto de derrota.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A HISTÓRIA DE M.

Idoso, negro e magro, Seu M. morava lá no bairro há muitos anos. Era viúvo e tinha uma família grande, repleta de filhos e netos, muitos deles morando também lá no bairro. Já fora vítima de patologias como hanseníase e tuberculose, além de ser hipertenso. Gostava muito de andar e o fazia quase sempre sozinho, descendo e subindo a rua com um bastão, ora para lhe dar sustentação, ora para afastar pessoas indesejáveis, não titubeava em bater em quem vinha lhe incomodar, nessas ocasiões o mínimo que fazia era quebrar um pertence do sujeito, como vidro de carro e bicicletas.

Em época de campanha de vacinação, costumamos vacinar em casa os idosos acamados, os cadeirantes, os que por algum motivo não podem ir à Unidade e, numa tentativa de convencê-los, os que se recusam a tomar vacina, figurando nesse último grupo Seu M. A técnica de enfermagem do Posto, Tonha, foi encarregada na última vez de ir até a casa de Seu M. para explicar-lhe a importância da vacina e da gravidade da gripe em pessoas idosas, sendo expulsa sob a ameaça do famoso bastão. Trouxe-nos a resposta dele:

_ Não vou tomar essa porcaria de vacina, porque foi o presidente Fernando Henrique que mandou dar pra matar os velhos pra ele não precisar pagar aposentadoria.

Rimos muito, mas ele e outros não tomaram a vacina com medo de estar envenenada.


Era muito engraçado também, além de ser um problema, quando Seu M. ia até o Posto para pegar seu remédio para hipertensão: como os fornecedores dos medicamentos adquiridos pela Prefeitura não eram sempre os mesmos, a embalagem do remédio variava e Seu M. só o tomava quando vinha na prateada. Em outra cor qualquer ou transparente, não havia quem o fizesse levar o medicamento, ele devolvia e ainda ficava bravo.

O jeito era guardar, exclusivamente para ele, em estoque os remédios de embalagem prateada para que quando outra embalagem viesse tivéssemos uma reserva. Ou trocávamos com outros pacientes e outras Unidades.

Fora essas "paranóias", Seu M. era uma pessoa alegre, que gostava de tocar e cantar e, apesar de ter mais de setenta anos, ficava muito feliz quando tinha oportunidade de mostrar seu trabalho. Ele sempre dizia que tinha uma banda, mas que os componentes dela se resumiam a ele mesmo: compunha, cantava e tocava, além disso, inventou um equipamento que seu neto transportava num carrinho de mão quando tinha alguma apresentação. Sanfona nas mãos e pés nos bumbos do equipamento inventado faziam da "banda Nó Cego" uma experiência interessante e pitoresca.

Um dia chegou na Unidade numa alegria só para me contar que tinha gravado um CD independente, na gravadora de um amigo, e queria me presentear com o primeiro disco, porque, segundo ele, só assim conseguiria vender os demais. Senti-me feliz e um pouco emocionada, agradeci o presente e parabenizei-o pela conquista. Meus alunos de medicina compraram o CD e ele ficou radiante.

Nos últimos tempos cheguei a ficar meses sem vê-lo, soube apenas que estava passando muito tempo na casa dos outros filhos, em outros bairros. Chegou-me então a notícia de sua morte. Fiquei muito triste de não ter podido me despedir.

Lá se foi, com seu bastão, sua irreverência e coragem de viver. Deixou apenas, silenciosa, no canto da casa, a "banda" que sempre o acompanhava com orgulho. Sumiu da minha vista, sumiu da minha vida, mas permanece para sempre, personagem vivo,pintado com amor, num dos quadros pendurados na minha vasta parede da memória.

sábado, 10 de outubro de 2009

MEMÓRIAS

No Posto de Saúde de Cascalheira, uma das atendentes de enfermagem chega até mim e comenta que na noite anterior uma mulher do "cabaré" tinha levado uma surra de um peão. E emenda que ouviu isso quando uma das amigas da mulher contava para o dono da farmácia. Perguntei o porquê da mulher machucada não ter ido até mim, no posto, para que eu cuidasse dos ferimentos. Ao que a atendente, deixando-me intrigada, respondeu que elas não freqüentavam o Posto porque ele era do povo e o povo não ia gostar de encontrá-las aqui.


Chamavam em Cascalheira de "rua do cabaré" o local onde ficavam as casas de prostituição, que consistiam em seis ou sete casas, afastadas da cidade, governadas por um homem ou uma mulher: os "donos" das meninas.


Elas saiam pouco, preferiam mandar os empregados à cidade. Quando decidiam sair, no entanto, chamavam a atenção pelas roupas extravagantes, constratando com a roupa simples e as chinelas das mulheres do lugar, e porque tinham dinheiro e gostavam de gastá-lo. Assim, enquanto os moradores olhavam-nas com um misto de desconfiança e indignação, os comerciantes as tratavam com toda a deferência com que se trata os bons clientes.


Era interessante como as mulheres de Cascalheira enxergavam as meninas. Enquanto moravam e trabalhavam na "rua dos cabarés", eram ignoradas e desprezadas, atitudes justificadas pela moral cristã, apesar da igreja de lá não compartilhar desse pensamento, pelo ciúmes que sentiam de seus homens e, grande parte, pela inveja da juventude, da beleza e do dinheiro delas. Todavia, se alguma se casava e ia morar com o companheiro na cidade, deixando "a vida" e assumindo uma relação séria, passava imediatamente a ser aceita por todas.


Voltando ao ponto de partida da história, a moça que tinha sido agredida, resolvi que ia até sua casa avaliar a gravidade de seu estado. Luizinho, atendente de enfermagem, achou imprudente minha decisão, uma vez que estava há pouco tempo na cidade, ainda sob aceitação, e uma atitude dessa podia interferir no processo. Reuni, então, a Comissão de Saúde, composta por lideranças locais, a fim de expor a situação e, surpreendentemente, minha decisão foi apoiada por unanimidade.


Munida de instrumentos médicos e medicamentos, parti para a"rua dos cabarés" com Luizinho. Acatando a recomendação da Comissão, fomos após às três da tarde, porque, além das meninas acordarem após o meio-dia, evitava que encontrássemos ainda algum cliente da casa por lá, o que seria constrangedor.

Chegamos e o silêncio reinava, as casas eram de alvenaria, com cores fortes dispostas lado a lado. Bati de porta em porta procurando a moça agredida, que, enfim, já estava melhor, aproveitando para convidar todas as outras para uma reunião. Quando me reconheciam, olhavam-me com espanto e, muitas vezes, com desprezo.


Foram chegando ao local combinado uma a uma. Vinham bocejando, algumas com os cabelos molhados do banho recente, outras com a maquiagem borrada da véspera. Acomodando-se, umas curiosas, umas desafiadoras, começaram, a fim de me testar, a me deixar constrangida, conversando sobre os acontecimentos da noite anterior, não poupando detalhes picantes e desnecessários.


Ouvi tudo com tranqüilidade. Ao perceberem não haver me intimidado, ficaram mais à vontade e passaram a demonstrar interesse real por tudo que eu falava. A reunião mostrou-se agradável e produtiva, girando em torno de assuntos como DSTs e violência contra a mulher. Ao final, ficou acordado que eu abriria a Unidade uma vez por semana na hora do almoço só para atendê-las e que uma vez por mês viria até elas conversar sobre temas de saúde, propondo, por fim, que fosse eleita uma representante entre elas para fazer parte da Comissão de Saúde. E assim foi feito.


Distraia-me muito nos dias em que iam na Unidade, com sua alegria e irreverência, enchiam de risadas o ambiente. A Comissão de Saúde recebeu sua representante eleita de braços abertos, indo visitá-la, inclusive, quando esteve internada, enchendo-na de orgulho.


Algumas coisas, no entanto, demoravam mais a mudar. Um dia, ao sair do açougue, encontrei uma das meninas e cumprimentei-a, perguntando como estava, ela sacudiu a cabeça num sinal positivo e se afastou rapidamente. No dia seguinte, quando foi à Unidade, disse que eu não precisava cumprimentá-la quando a encontrasse na rua. Rebati dizendo que eu não tinha motivos para sentir vergonha de cumprimentá-la em qualquer lugar que estivesse. Ela sorriu e abaixou a cabeça.


A partir desse dia, pude contar com elas para tudo. Sempre que enfrentamos momentos difíceis, estavam prontas para ajudar.De forma discreta, contribuiam com dinheiro ou trabalho. Quando fui demitida, inclusive, soube que, cheias de indignação, fizeram um abaixo- assinado pedindo a minha volta.


Minha lembrança delas é de meninas-mulheres de riso fácil e malícia, enchendo qualquer ambiente de alegria. Fortes e frágeis, decididas e inseguras, risonhas e tristes. Disfarçando com maquiagem as olheiras de noites mal dormidas e maus tratos sofridos. Fumavam e bebiam e, apesar de atrevidas, respeitavam os limites impostos pela sociedade local. Solitárias e solidárias damas da noite. Aprendi com elas a olhar além da imagem do ser- humano, respeitando sua individualidade e sua história, sem fazer julgamentos precipitados. Aprendi, principalmente, a capacidade de rir da vida.


Eram mulheres sofridas, com vida e sonhos comuns. Queriam ter filhos, marido e uma casinha para chamar de sua. Queriam ir à igreja aos domingos e fazer pamonha na roça. Eram moças como todas as outras, que por algum desencontro ou descaminhos trilharam outras vidas e não souberam mais voltar.