domingo, 14 de junho de 2009

O PARTO


Minha casinha em Cascalheira


As noites de Cascalheira, quando não eram de lua, eram escuras, muito escuras. Dez da noite, o motor a disel, única fonte de energia da cidade, era desligado e restava a escuridão. As luzes bruxuleantes das velas, das lamparinas e dos lampiões a gás iluminavam o interior das casas e lá fora as pessoas recolhiam as cadeiras das portas, onde há pouco conversavam com os vizinhos, contando casos, ás vezes ao som de uma viola, tomando um cafézinho passado na hora. As crianças que ainda brincavam, tal como as cadeiras, também eram recolhidas, as casas se trancavam e, aos poucos, o sons das vozes iam sumindo, iam se apagando junto com as luzes. Eu já havia me habituado a essa rotina. Ficava conversando com os vizinhos ou lendo até o sono chegar, antes da escuridão reinar. Eu dormia cedo, porque não sabia se dormiria a noite toda. Ela era sempre um mistério para mim, escondendo em suas sombras histórias de dor e de alegria. Nas noites sem lua, a vontade era olhar para o céu, onde se acendiam as estrelas disputando entre si um lugar naquele pedaço de firmamento. Eu já havia comprado minha casinha de adobe, num ranchinho, o chão de terra batida, cobertura de palha. Tinha quatro cômodos e o banheiro ficava do lado de fora. Decorei minha casa com artesanatos indígenas e de artesão da região, com redes, esteiras, cestos de palha e baús de couro. No meu quarto, uma cama de casal antiga, de ferro batido, presente de um amigo, e um armário compunham a decoração e duas janelas grandes, uma dando para a rua, a outra para o sol. De manhã, bem cedo, pegava um pouco de café em grão, já torrado, e ia até a casa de Dona Naíde, a vizinha, a fim de moê-lo. Lá não existia padaria e quem quisesse comer pão tinha que fazê-lo e era o que acontecia. Todo mundo fazia pão, menos eu. Contentava-me em esperar as vendedoras, com suas cestinhas repletas de pão quentinho. Ás vezes ganhava também de amigos e vizinhos. Minhas noites eram sempre imprevisíveis: a qualquer momento alguém poderia bater na minha janela para alguma emergência. Nos meus primeiros dias lá, esse chamado era o que eu mais temia. Nas maioria das vezes se tratava de gestantes em trabalho de parto que, acompanhadas por parteiras experientes, me davam o sinal de que alguma coisa não ia bem e esse era meu medo. Lembrava-me sempre do que meu professor de obstetrícia dizia: "A maioria dos partos são normais, mas quando complica é sempre emergência". E sobre o assunto só o tinha visto quando estudante, porque depois de formada fiz residência médica em infectologia e saúde comunitária e fazer um parto em domicílio que podia ser complicado, sabendo que o hospital mais próximo ficava a trezentos quilômetros de distância, e sem ninguém pra me ajudar, a não ser meu conhecimento teórico, alguns instrumentos cirúrgicos básicos que mantinha esterelizados, era de amedrontar qualquer um. No entanto, a certeza de que não havia numa área de aproximadamente trezentos quilômetros ninguém mais preparado que eu para ajudá-las, me encorajava a prosseguir. Lembro-me da primeira vez que isso aconteceu, ainda morava na casa alugada, meu coração disparou. Normalmento era o marido ou o pai que vinham me buscar.Eu acordava rápido, muitas vezes antes mesmo de me chamarem, apenas pelo ruído dos passos. Naquela ocasião, me vesti, peguei meus apetrechos e a lanterna e o acompanhei. Deviam ser duas horas da manhã, a noite envolvia-nos com seus ruídos do silêncio: um galo cantando ao longe, o coachar de um sapo, passos sem dono no cascalho, passos da noite. A casa era pequena, iluminada por velas e, assim como a maioria das casas da região, de adobe coberta com palhas. O quarto não era pequeno, mas se tornava pela quantidade de pessoas que nele circulava, além de cachorros e galinhas que toda hora tinham de ser retirado para, logo em seguida, retornarem. A moça gemia e chorava deitada numa cama baixa, a seus pés, sentada, encontrava-se a parteira, cujas ordens- água pra molhar os lábios da filha, chá de gengibre para acelerar o trabalho de parto- faziam com que a mãe da moça entrasse e saísse a toda hora do quarto. O marido, na cabeceira da cama, sustentando no peito a cabeça da mulher. As vizinhas ajudavam a mãe ou tomavam conta das crianças e os homens ficavam do lado de fora da casa conversando. A luz bruxuleante tornava esse quadro um tanto baço, irreal. Cheguei e fui conversar com a parteira, sentindo os olhares em redor, oscilantes entre a esperança e a desconfiança. Segundo a parteira, o trabalho de parto não avançava há mais de uma hora. Coloquei o pinard para ouvir o coração do neném: forte e ritmico. A dilatação estava quase completa, mas as contrações, realmente, estavam fracas e esparsas. Decidi romper a bolsa para acelerar o trabalho de parto e o fiz assim que aconteceu a contração seguinte. Enquanto isso, a parteira fazia simpatias para ajudar: colocava o chapéu do marido na cabeça da mulher, fazia-o rodear três vezes a casa repetindo uma determinada oração e mais algumas de que não em lembro. Após a ruptura das membranas, as contrações começaram a ficar mais fortes e frequentes e o bebê, enfim, nasceu. Permaneci na casa até o nascimento, mas deixei a parteira conduzir o parto. Após o nascimento, examinei a criança e aspirei as secreções com uma perinha de borracha apropriada e ele chorou alto. A parteira terminava o ritual do trabalho de parto, trocando os lençóis e as roupas da moça para que todos pudessem ver a criança. O pai, a fim de avisar o resto da cidade do nascimento do filho, soltou um foguete com três tiros, se fosse mulher seriam dois apenas. Enquanto uma vizinha preparava um café para todos, voltei para casa. Afirmei que não precisavam me levar, que sabia voltar pra casa sozinha. Grande erro. Apesar da lanterna, a escuridão era total. Só ouvia os latidos e sentia os olhos dos cachorros, brilhando à luz da lanterna. Peguei pedras no chão, ameacei atirar, eles recuaram. Não conseguia encontrar minha casa, passei por ela e não percebi. Comecei a ficar preocupada porque nem sabia mais como retornar à casa do nascimento para pedir ajuda. Finalmente, a calçada de cimento branco ao redor de minha casinha consegui reconhecer. Abri a porta e respirei aliviada e cansada, mas feliz e com a sensação de dever cumprido. Deitei e logo dormi. A noite estava partindo. Ao longe um galo cantava anunciando mais um nascimento, o nascimento do dia.