domingo, 23 de maio de 2010

INQUIETUDE

Dona M. vem adentrando pelo portão da Unidade, é baixa e troncuda, usa o cabelo preso num coque na nuca, tem os lábios finos e crispados e seus olhos parecem duas fendas horizontais. Quando a vemos aproximar-se, a vontade é de nos escondermos até ela ir embora, como se isso fosse possível! Ela não desiste fácil quando quer alguma coisa. É uma pessoa difícil, muito difícil, de lidar. Tem distúrbio mental e postura agressiva, embora nunca tenha agredido fisicamente ninguém na Unidade e acho que também não o fez em outros lugares. Em compensação, verbalmente, o faz a toda hora e a todos, nesse ponto é bem democrática. Nada a detém quando quer falar com alguém: várias vezes invadiu o meu consultório em meio a uma consulta porque queria ser atendida na hora, sem esperar. Tem um linguajar um tanto chulo, o que agride os outros pacientes, deixando-os constrangidos com sua presença. Certa vez, após uma perineoplastia, colocou na cabeça que o ginecologista a tinha costurado completamente, inclusive sua abertura vaginal. Foi muito difícil convencê-la do contrário, fiz de tudo, mas não consegui. Soube depois que ela foi até o Hospital onde havia sido operada e fez um escândalo. Outra vez, falou na sua casa que a enfermeira da Unidade que havia feito o seu CCO havia esquecido o espéculo dentro dela. As filhas, que não moram no bairro, vieram reclamar, mostrei-lhes o espéculo e perguntei se elas achavam possível esquecer esse instrumento dentro de alguém e essa pessoa conseguir levantar-se e ir embora depois: pediram desculpas. Dona M. continua aprontando aonde vai, vários hospitais e médicos se recusam a atendê-la . Apesar de fazer tratamento psiquiátrico, acaba não utilizando, ou fazendo-o incorretamente, os remédios. Para que conseguisse uma cirurgia oftálmica, teve que recorrer à justiça, pois os hospitais de referência não queriam atendê-la se não estivesse completamente controlada e medicalizada. Nessa época, ia constantemente na Unidade porque queria que eu telefonasse ao juiz e pedisse que apressasse o seu processo. E, por mais que eu explicasse que não tenho esse poder, ela não se conformava.


Um dia, estava tranquilamente terminando o meu atendimento quando recebi um telefonema da outra Unidade do mesmo bairro: queriam que eu entrasse em contato com a família de Dona M. porque ela havia tido um "surto " lá e o colega havia chamado a ambulância do hospital psiquiátrico para levá-la internada.Conseguimos localizar suas filhas e fui depressa para lá. Ela estava nervosa, xingando todo mundo, tentei acalmá-la, logo a ambulância chegou e, na mesma hora, suas filhas. Foi uma gritaria que acabou fazendo com que as filhas não deixassem que a internassem. Algumas poucas vezes, ela está calma e alegre. Nessas ocasiões, apelida a gente com nome de bichos: coruja, garça, e outros, e explica o porque de cada apelido, nós morremos de rir. Numa dessas vezes, carregou-me no colo e saiu andando para mostrar o quanto era forte, me deixando apavorada.
Sua chegada em qualquer lugar é pertubadora: questiona sua vocação, testa sua paciência, seu equilíbrio e sua capacidade de controle. Quando vejo seu vulto ao longe, quero desaparecer, principalmente quando não estou nos meus melhores dias. Mas não adianta fugir e tentar ignorar sua existência, ela existe e continuará vindo, xingando e exigindo respostas que não podemos dar, algumas justas, outras um tanto descabidas, sempre com seu jeito insistente e pertubador de ser. Seus olhos apertados transmitem uma revolta insana, eloqüente, assustadora. Mas ela existe e necessita de cuidados e, como profissionais de saúde, não podemos ignorá-la, não podemos apagá-la, temos que acolhê-la , suspirar fundo, engolir em seco, mas acolhê-la.


Outro dia no ônibus, a caminho de casa, a vi andando na rua e fiquei fitando-a enquanto caminhava. Falava sozinha, segurando uma sacola onde leva sua história. Daquele ângulo, parecia tão pequena, tão indefesa, sozinha no mundo dos que se dizem sãos, dos que não a toleram por ser diferente, por não ter padrões, por nos deixar confusos e sem respostas. Senti-me pequena e inacabada, como profissional e como ser humano. Vi-a atravessar a rua com seu diálogo consigo mesma, com seu eu, que a ouve e que compartilha de seus delírios. Afastou-se com seus passos rápidos e decididos, enquanto permaneci silenciosa e apagada na minha distância segura.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

AOS VELHOS AMIGOS QUE PARTIRAM:

Este ano está me levando várias vidas. Vidas queridas, vidas vividas. Estão indo embora os contadores de histórias, de histórias reais e sofridas, mas contadas com a graça e a sabedoria de quem soube vivê-las e aproveitá-las, cheias de risos e detalhes , cheias de suor e trabalho. A infância dura na roça, a luta pela sobrevivência, o casamento, os filhos, os netos, e, muitas vezes, a solidão e o abandono. Seus olhos opacos pela visão entorpecida, seus corpos curvados, seus rostos qual terra que endureceu, seus dedos sulcados pelo arado do tempo. Seus sorrisos, ás vezes contidos pelas agruras a que foram submetido, outras vezes fartos como o das crianças, mas sempre presentes.Chegavam com suas bengalas, seus chapéus de palha, suas sacolinhas cheias de remédios e receitas, muitas vezes tão antigas , já indecifráveis, que teimavam em guardar. Não entediam essa língua de horários e receitas, de consultas e de remédios, iam na Unidade como quem vai visitar um amigo íntimo: não seguiam horários pré- determinados para nada, iam consultar quando achavam que deviam, tomavam os remédios quando lembravam e comiam o que podiam comprar. Riam da nossa teimosia insistente ao lhes dizer até o que comer e o que não comer , como fazer a comida, o horário que deviam acordar e dormir. Riam. Muitas vezes só no seu íntimo, mas riam. Ouviam-nos ás vezes calados, mas determinados a construir o resto de suas vidas do jeito que bem entendessem. Pelo menos agora, que já não existia mais compromissos com a vida dos outros, sem filhos pra criar, sem chefes para obedecer, sem enxadas para se curvar,seriam, finalmente, donos do seu fim. Iam-se com seus passos incertos, suas sacolas e bengalas, os lenços nos cabelos brancos, os pés endurecidos pela longa caminhada, a pele arada, curtida pelo sol, seus olhos de poeira(o pó de lembranças cobrindo o olhar), o riso parado no tempo . Seguiram o caminho determinado e construído pela vida, o caminho que conheceram a vida inteira e que é parte de sua construção como indivíduo. Seguiram, passos lentos e cambaleantes, para nunca mais voltar.