sexta-feira, 19 de março de 2010

Minha história se confunde com a dos meus pacientes, não sei mais se é minha mesmo ou se algum deles me contou e, naquele momento, as nossas vidas se misturaram e pensei ter vivido o que não vivi. Espero, de verdade que não seja minha, seja apenas de uma cabeça confusa de tantas histórias e cansada de tanta vida. Gosto do meu trabalho, de curar doenças e ouvir histórias: algumas tristes, outras engraçadas. Hoje peguei um táxi, voltando da Universidade Federal, onde estudo Ciências Sociais, e quando sentei, o motorista me disse:

_E aí, doutora, tudo bem com a senhora?
_ Tudo bem.
Respondi sem muita certeza de quem era meu interlocutor, afinal só via um perfil. Aparentava mais de cinqüenta anos, magrinho e baixinho. Até que continuou:

_ A senhora se lembra de onde me conhece?

Arrisquei:

_ Lá do Novo Paraíso. Mas o senhor mudou de lá, não foi?

_ Não, doutora, ainda moro por lá. A senhora é nossa médica, atendeu até meu netinho essa semana. A senhora lembra que me encaminhou pra tirar um tumor no braço? Fiquei bonzinho! E sabe os meus meninos que trataram de Hanseníase lá no postinho? Um deles já acabou o tratamento e sarou mesmo.

De repente lembrei de toda a família e da história de cada um e,também, que ele não aparecia há algum tempo na Unidade. Aproveitei para cobrar-lhe uma ida para ver se estava tudo em ordem com a sua saúde. Respondeu-me que estava bem graças a mim e me agradeceu por cuidar da sua família. Chegamos na minha casa, desejei-lhe um bom final de semana e desci. Fiquei pensando na nossa conversa e em como é gratificante ser médica de família. De repente o cansaço passou e veio uma sensação de bem-estar, de dever cumprido. É, acho que ainda tenho que continuar, que ainda sou útil. Desafaço-me das histórias que povoam minha cabeça como quem limpa a poeira de um móvel e elas se dispersam no ar. Podem ser minhas, podem ser de outras vidas, ou de outras pessoas, não importa agora. Somem com o vento. E, por alguns instantes, não tenho mais histórias, sou leve. Sem marcas, sem lembranças, sem passado e sem futuro, apenas sou.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A HISTÓRIA DE R.

Era um senhor forte, a barriga proeminente, mas tranqüilo e sorridente. Tratava há vários anos de hipertensão e diabete, tinha mais de 65 anos e um sorriso largo no rosto. Era casado e morava com sua esposa numa chácara na periferia do bairro. Ela também tratava de várias patologias, além de depressão Vinham sempre consultar , embora seu R. nem sempre seguisse as recomendações e o tratamento correto para as suas doenças: não emagrecia, gostava de um docinho, e quando viajava, então, era um problema, esquecia que tinha Diabete. Outra coisa difícil era convencê-lo a usar Insulina, dizia que preferia morrer a ter que tomar injeção todo o dia. Isso dificultava muito o controle de sua doença, mesmo ele tendo consciência de todas as complicações decorrentes dela.A penúltima vez que viajou para o Pará, há mais ou menos 2 anos, chegou na Unidade com uma glicemia altíssima, tivemos que encaminhá-lo ao Pronto Socorrro para controle. Gostava de presentear a todos da Unidade com limões que tinha na chácara, e eram muitos, além de trazer mandava que fôssemos lá buscar a hora que quiséssemos. Sua esposa, por sua vez ,me dava de presente doce de limão em calda que fazia e trazia nos potes de vidro enfeitados.A última vez que o consultei estava com a glicemia alterada e a auscuta cardíaca não estava das melhores, preveni-o para ter cuidado, ajustei o medicamento e encaminhei-o ao Cardiologista para avaliação, logo depois entrei de férias. Semana passada, Leci, técnica de enfermagem da Unidad, me ligou e disse que o sr. R. havia sofrido um enfarte fulminate no fim de semana, e não havia resistido. Fiquei consternada e sem palavras, gostava muito daquele teimoso. Vejo sua imagem sorridente carregando uma sacola de limões para nos presentear. Foi-se pra sempre, fez sua derradeira viagem de forma rápida e decidida como era seu perfil.Quando retornei ao trabalho, me depararei com sua ausência, não sei se inevitável, não sei se esperada,mas para mim é sempre uma partida única , é sempre um gosto de derrota.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A HISTÓRIA DE M.

Idoso, negro e magro, Seu M. morava lá no bairro há muitos anos. Era viúvo e tinha uma família grande, repleta de filhos e netos, muitos deles morando também lá no bairro. Já fora vítima de patologias como hanseníase e tuberculose, além de ser hipertenso. Gostava muito de andar e o fazia quase sempre sozinho, descendo e subindo a rua com um bastão, ora para lhe dar sustentação, ora para afastar pessoas indesejáveis, não titubeava em bater em quem vinha lhe incomodar, nessas ocasiões o mínimo que fazia era quebrar um pertence do sujeito, como vidro de carro e bicicletas.

Em época de campanha de vacinação, costumamos vacinar em casa os idosos acamados, os cadeirantes, os que por algum motivo não podem ir à Unidade e, numa tentativa de convencê-los, os que se recusam a tomar vacina, figurando nesse último grupo Seu M. A técnica de enfermagem do Posto, Tonha, foi encarregada na última vez de ir até a casa de Seu M. para explicar-lhe a importância da vacina e da gravidade da gripe em pessoas idosas, sendo expulsa sob a ameaça do famoso bastão. Trouxe-nos a resposta dele:

_ Não vou tomar essa porcaria de vacina, porque foi o presidente Fernando Henrique que mandou dar pra matar os velhos pra ele não precisar pagar aposentadoria.

Rimos muito, mas ele e outros não tomaram a vacina com medo de estar envenenada.


Era muito engraçado também, além de ser um problema, quando Seu M. ia até o Posto para pegar seu remédio para hipertensão: como os fornecedores dos medicamentos adquiridos pela Prefeitura não eram sempre os mesmos, a embalagem do remédio variava e Seu M. só o tomava quando vinha na prateada. Em outra cor qualquer ou transparente, não havia quem o fizesse levar o medicamento, ele devolvia e ainda ficava bravo.

O jeito era guardar, exclusivamente para ele, em estoque os remédios de embalagem prateada para que quando outra embalagem viesse tivéssemos uma reserva. Ou trocávamos com outros pacientes e outras Unidades.

Fora essas "paranóias", Seu M. era uma pessoa alegre, que gostava de tocar e cantar e, apesar de ter mais de setenta anos, ficava muito feliz quando tinha oportunidade de mostrar seu trabalho. Ele sempre dizia que tinha uma banda, mas que os componentes dela se resumiam a ele mesmo: compunha, cantava e tocava, além disso, inventou um equipamento que seu neto transportava num carrinho de mão quando tinha alguma apresentação. Sanfona nas mãos e pés nos bumbos do equipamento inventado faziam da "banda Nó Cego" uma experiência interessante e pitoresca.

Um dia chegou na Unidade numa alegria só para me contar que tinha gravado um CD independente, na gravadora de um amigo, e queria me presentear com o primeiro disco, porque, segundo ele, só assim conseguiria vender os demais. Senti-me feliz e um pouco emocionada, agradeci o presente e parabenizei-o pela conquista. Meus alunos de medicina compraram o CD e ele ficou radiante.

Nos últimos tempos cheguei a ficar meses sem vê-lo, soube apenas que estava passando muito tempo na casa dos outros filhos, em outros bairros. Chegou-me então a notícia de sua morte. Fiquei muito triste de não ter podido me despedir.

Lá se foi, com seu bastão, sua irreverência e coragem de viver. Deixou apenas, silenciosa, no canto da casa, a "banda" que sempre o acompanhava com orgulho. Sumiu da minha vista, sumiu da minha vida, mas permanece para sempre, personagem vivo,pintado com amor, num dos quadros pendurados na minha vasta parede da memória.

sábado, 10 de outubro de 2009

MEMÓRIAS

No Posto de Saúde de Cascalheira, uma das atendentes de enfermagem chega até mim e comenta que na noite anterior uma mulher do "cabaré" tinha levado uma surra de um peão. E emenda que ouviu isso quando uma das amigas da mulher contava para o dono da farmácia. Perguntei o porquê da mulher machucada não ter ido até mim, no posto, para que eu cuidasse dos ferimentos. Ao que a atendente, deixando-me intrigada, respondeu que elas não freqüentavam o Posto porque ele era do povo e o povo não ia gostar de encontrá-las aqui.


Chamavam em Cascalheira de "rua do cabaré" o local onde ficavam as casas de prostituição, que consistiam em seis ou sete casas, afastadas da cidade, governadas por um homem ou uma mulher: os "donos" das meninas.


Elas saiam pouco, preferiam mandar os empregados à cidade. Quando decidiam sair, no entanto, chamavam a atenção pelas roupas extravagantes, constratando com a roupa simples e as chinelas das mulheres do lugar, e porque tinham dinheiro e gostavam de gastá-lo. Assim, enquanto os moradores olhavam-nas com um misto de desconfiança e indignação, os comerciantes as tratavam com toda a deferência com que se trata os bons clientes.


Era interessante como as mulheres de Cascalheira enxergavam as meninas. Enquanto moravam e trabalhavam na "rua dos cabarés", eram ignoradas e desprezadas, atitudes justificadas pela moral cristã, apesar da igreja de lá não compartilhar desse pensamento, pelo ciúmes que sentiam de seus homens e, grande parte, pela inveja da juventude, da beleza e do dinheiro delas. Todavia, se alguma se casava e ia morar com o companheiro na cidade, deixando "a vida" e assumindo uma relação séria, passava imediatamente a ser aceita por todas.


Voltando ao ponto de partida da história, a moça que tinha sido agredida, resolvi que ia até sua casa avaliar a gravidade de seu estado. Luizinho, atendente de enfermagem, achou imprudente minha decisão, uma vez que estava há pouco tempo na cidade, ainda sob aceitação, e uma atitude dessa podia interferir no processo. Reuni, então, a Comissão de Saúde, composta por lideranças locais, a fim de expor a situação e, surpreendentemente, minha decisão foi apoiada por unanimidade.


Munida de instrumentos médicos e medicamentos, parti para a"rua dos cabarés" com Luizinho. Acatando a recomendação da Comissão, fomos após às três da tarde, porque, além das meninas acordarem após o meio-dia, evitava que encontrássemos ainda algum cliente da casa por lá, o que seria constrangedor.

Chegamos e o silêncio reinava, as casas eram de alvenaria, com cores fortes dispostas lado a lado. Bati de porta em porta procurando a moça agredida, que, enfim, já estava melhor, aproveitando para convidar todas as outras para uma reunião. Quando me reconheciam, olhavam-me com espanto e, muitas vezes, com desprezo.


Foram chegando ao local combinado uma a uma. Vinham bocejando, algumas com os cabelos molhados do banho recente, outras com a maquiagem borrada da véspera. Acomodando-se, umas curiosas, umas desafiadoras, começaram, a fim de me testar, a me deixar constrangida, conversando sobre os acontecimentos da noite anterior, não poupando detalhes picantes e desnecessários.


Ouvi tudo com tranqüilidade. Ao perceberem não haver me intimidado, ficaram mais à vontade e passaram a demonstrar interesse real por tudo que eu falava. A reunião mostrou-se agradável e produtiva, girando em torno de assuntos como DSTs e violência contra a mulher. Ao final, ficou acordado que eu abriria a Unidade uma vez por semana na hora do almoço só para atendê-las e que uma vez por mês viria até elas conversar sobre temas de saúde, propondo, por fim, que fosse eleita uma representante entre elas para fazer parte da Comissão de Saúde. E assim foi feito.


Distraia-me muito nos dias em que iam na Unidade, com sua alegria e irreverência, enchiam de risadas o ambiente. A Comissão de Saúde recebeu sua representante eleita de braços abertos, indo visitá-la, inclusive, quando esteve internada, enchendo-na de orgulho.


Algumas coisas, no entanto, demoravam mais a mudar. Um dia, ao sair do açougue, encontrei uma das meninas e cumprimentei-a, perguntando como estava, ela sacudiu a cabeça num sinal positivo e se afastou rapidamente. No dia seguinte, quando foi à Unidade, disse que eu não precisava cumprimentá-la quando a encontrasse na rua. Rebati dizendo que eu não tinha motivos para sentir vergonha de cumprimentá-la em qualquer lugar que estivesse. Ela sorriu e abaixou a cabeça.


A partir desse dia, pude contar com elas para tudo. Sempre que enfrentamos momentos difíceis, estavam prontas para ajudar.De forma discreta, contribuiam com dinheiro ou trabalho. Quando fui demitida, inclusive, soube que, cheias de indignação, fizeram um abaixo- assinado pedindo a minha volta.


Minha lembrança delas é de meninas-mulheres de riso fácil e malícia, enchendo qualquer ambiente de alegria. Fortes e frágeis, decididas e inseguras, risonhas e tristes. Disfarçando com maquiagem as olheiras de noites mal dormidas e maus tratos sofridos. Fumavam e bebiam e, apesar de atrevidas, respeitavam os limites impostos pela sociedade local. Solitárias e solidárias damas da noite. Aprendi com elas a olhar além da imagem do ser- humano, respeitando sua individualidade e sua história, sem fazer julgamentos precipitados. Aprendi, principalmente, a capacidade de rir da vida.


Eram mulheres sofridas, com vida e sonhos comuns. Queriam ter filhos, marido e uma casinha para chamar de sua. Queriam ir à igreja aos domingos e fazer pamonha na roça. Eram moças como todas as outras, que por algum desencontro ou descaminhos trilharam outras vidas e não souberam mais voltar.

sábado, 5 de setembro de 2009

PÁSSARO (à minha mãe):



Meu coração bate pequenino, mal o sinto no meu peito oco. Mesmo assim percorro o caminho que me cabe. Dia a dia ouço o sofrimento dos outros, e o meu, quem o ouve?

Enquanto caminho, sinto fluir a tua vida rapidamente. Escapas de ti mesma, minhas mãos já não conseguem te prender à realidade da vida, teu corpo leve mal toca no chão quando andas, pareces um pequeno pássaro, na porta entreaberta da gaiola, pronto para partir para a liberdade. Olhas para nós pedindo ajuda, queres partir, mas te falta coragem. Teus olhos antes assustados vão adquirindo a tranqüilidade do inevitável, meus olhos antes tranqüilos são só desespero contido perante o inexorável.

Continuo meu cotidiano, mas não me afasto de ti, pequeno pássaro. Meus pensamentos voam ao teu lado, afago tua cabeça e massageio tuas costas, toco nos teus ombros tão frágeis, canto músicas que gostas de ouvir e sorris serena. Teu quarto, os CDs, os livros de poesia: todos testemunhas caladas da tua vida.

Seguro com ambas as mãos teu corpinho de ave, não te deixo partir. Não agora. Tenho tanta coisa a falar, mas não escutas mais, teu olhar vago e remoto me diz isso. Tua essência me foge das mãos, me olhas de longe, me desconheces. Te seguro firme, sinto teu coração frágil pulsar, te guardo no meu peito oco, enquanto caminho ninguém te vê, ninguém me vê. Carregar-te-ei para sempre dentro do meu peito, mas teu rosto, tua alma já não fazem parte do cotidiano, não te interessas mais pelas coisas mundanas que antes eram tão tuas. Teu olhar me pede ajuda, minhas mãos tremendo se abrem para a eternidade e deixam-te partir.

domingo, 19 de julho de 2009

ESPERANÇA


A igrejinha

Chegou na Unidade falando alto, alegre e independente. Era um senhor de aproximadamente 70 anos com boa estatura e forte, com uns quilos excedentes visíveis na barriga. Natural de Santa Catarina, mas sua última estadia antes de chegar em Cuiabá havia sido Rondônia, de onde veio para ser pastor de uma igreja evangélica. Moravam ele, a esposa e a neta numa casinha simples de madeira, com dois cômodos, construída no terreno nos fundos da igreja. No dia em que apareceu, quando aferimos sua pressão estava bem elevada, expliquei-lhe a necessidade do tratamento e as possíveis complicações caso não o fizesse. Seu P. após dar-me um sorriso balançou a cabeça negativamente e falou: -Não vou tratar não doutora, não precisa, Deus cuida de mim. Argumentei: -Deus tem mais coisa o que fazer, por isso delegou ao homem essa tarefa. Não o convenci. Disse-me que eu não tinha fé bastante para acreditar que Deus o curaria. Despediu-se com um sorriso condescendente. Os meses se passaram e seu P., mesmo frequentando a Unidade com sua esposa, continuava recusando o tratamento. Um dia chegou-me a notícia de que ele havia sofrido um AVC (derrame) durante a noite e havia sido internado. Permaneceu durante aproximadamente 1 mês no hospital, vindo a receber alta com sequelas relevantes. Fui visita-lo assim que voltou pra casa. Deitado, com paralisia de um lado do corpo, transformare-se em homem franzino e dependente. Ao me ver começou a chorar e balbuciar frases desconexas, de impossível entendimento. Tentei acalma-lo dentro de sua fé, mas seus olhos eram só desespero. Não conseguia e nem precisava falar, seus olhos fizeram esse papel. Os meses que se seguiram foram difíceis, pois teve que repetir exames e ir a diversos especialistas e tudo isso dependia de ambulância, cadeira de rodas e acompanhantes e, como nem sempre conseguíamos que chegasse na hora marcada,muitas vezes acabava não sendo atendido. Acontecia de o profissional ainda estar no serviço e se recusar a atendê-lo por causa do atraso, resultando em atritos constantes entre a Unidade e os serviços de Atenção Secundária. Mais tempo se passou e a Igrejinha, agora fechada, não tinha mais fiéis, o pastor, que antes lhes levava conforto através da palavra de Deus, agora estava prisioneiro de seu próprio corpo, deitado numa cama, ali, bem perto.Dessa vez, era ele quem precisava de uma palavra, de um alento, precisava de toda a sua fé. Aos poucos foi ficando mais prisioneiro: seus membros foram atrofiando por causa da falta de fisioterapia, que não pôde fazer pela dificuldade de condução. Conseguimos que a fisoterapeuta fosse algumas vezes em sua casa, mas isso pouco adiantou. Continuava chorando quando eu ia visita-lo, agora pedia para voltar para sua terra, perto de seus parentes. Tentei, através de uma reportagem em um jornal da cidade e cartas para as Secretarias de Promoção Social do Estado e Município, conseguir passagens para ele, a mulher e a neta embarcarem para Santa Catarina, mas nada consegui. Continuou ali, deitado no seu canto, bem tratado pela família, mas infeliz. As lágrimas continuavam escorrendo quando me via, e eu, sem respostas, sem nada para dar-lhe, apenas o conforto de uma voz amiga. Hoje sua Igrejinha voltou a funcionar sob o comando de um novo pastor, com suas bênçãos, e ele teve uma infecção de pele que evolui de forma rápida para uma necrose. Está internado e deverá sofrer uma amputação, provavelmente de parte do pé. Sua esposa não queria interna-lo apelando mais uma vez para Deus, dessa vez fui mais dura e incisiva e consegui demovê-la da ideia de tratá-lo em casa. Passo pela Igrejinha, agora em reforma,entro, e, enquanto os pintores fazem seu serviço, olho para o crucifixo preso à parede e lembro da fé de seu P., a fé que o fazia viver a vida sem enxergá-la, que o fazia encontrar explicações para tudo, mas que agora não consegue dar-lhe paz. Olho para o cruxifico e vejo um Deus tão próximo e tão distante, que exige sacrifícios de quem viver já é um sacrifício, com a promessa de um paraíso, quiçá diferente deste. As Igrejas se multiplicam nos bairros pobres, multiplicam-se porque espalham esperanças, sejam elas verdadeiras ou não, isso não importa. Multiplica-se a fé em uma vida melhor. Se o fizerem por merecer, quem sabe? Mas essa esperança é o que os alimenta, que os leva a trilhar o dia a dia da desesperança, nas ruas poeirentas da realidade. A fé é uma promessa de um sonho não vivido, de uma vida negada. A esperança que se dissolve e escorre em lágrimas pelo rosto de P., deixando seus olhos vazios e delirantes, suplicando ajuda. Suplicando talvez pelo sonho que não sonha mais, suplicando talvez pela vida que não vive mais.

domingo, 14 de junho de 2009

O PARTO


Minha casinha em Cascalheira


As noites de Cascalheira, quando não eram de lua, eram escuras, muito escuras. Dez da noite, o motor a disel, única fonte de energia da cidade, era desligado e restava a escuridão. As luzes bruxuleantes das velas, das lamparinas e dos lampiões a gás iluminavam o interior das casas e lá fora as pessoas recolhiam as cadeiras das portas, onde há pouco conversavam com os vizinhos, contando casos, ás vezes ao som de uma viola, tomando um cafézinho passado na hora. As crianças que ainda brincavam, tal como as cadeiras, também eram recolhidas, as casas se trancavam e, aos poucos, o sons das vozes iam sumindo, iam se apagando junto com as luzes. Eu já havia me habituado a essa rotina. Ficava conversando com os vizinhos ou lendo até o sono chegar, antes da escuridão reinar. Eu dormia cedo, porque não sabia se dormiria a noite toda. Ela era sempre um mistério para mim, escondendo em suas sombras histórias de dor e de alegria. Nas noites sem lua, a vontade era olhar para o céu, onde se acendiam as estrelas disputando entre si um lugar naquele pedaço de firmamento. Eu já havia comprado minha casinha de adobe, num ranchinho, o chão de terra batida, cobertura de palha. Tinha quatro cômodos e o banheiro ficava do lado de fora. Decorei minha casa com artesanatos indígenas e de artesão da região, com redes, esteiras, cestos de palha e baús de couro. No meu quarto, uma cama de casal antiga, de ferro batido, presente de um amigo, e um armário compunham a decoração e duas janelas grandes, uma dando para a rua, a outra para o sol. De manhã, bem cedo, pegava um pouco de café em grão, já torrado, e ia até a casa de Dona Naíde, a vizinha, a fim de moê-lo. Lá não existia padaria e quem quisesse comer pão tinha que fazê-lo e era o que acontecia. Todo mundo fazia pão, menos eu. Contentava-me em esperar as vendedoras, com suas cestinhas repletas de pão quentinho. Ás vezes ganhava também de amigos e vizinhos. Minhas noites eram sempre imprevisíveis: a qualquer momento alguém poderia bater na minha janela para alguma emergência. Nos meus primeiros dias lá, esse chamado era o que eu mais temia. Nas maioria das vezes se tratava de gestantes em trabalho de parto que, acompanhadas por parteiras experientes, me davam o sinal de que alguma coisa não ia bem e esse era meu medo. Lembrava-me sempre do que meu professor de obstetrícia dizia: "A maioria dos partos são normais, mas quando complica é sempre emergência". E sobre o assunto só o tinha visto quando estudante, porque depois de formada fiz residência médica em infectologia e saúde comunitária e fazer um parto em domicílio que podia ser complicado, sabendo que o hospital mais próximo ficava a trezentos quilômetros de distância, e sem ninguém pra me ajudar, a não ser meu conhecimento teórico, alguns instrumentos cirúrgicos básicos que mantinha esterelizados, era de amedrontar qualquer um. No entanto, a certeza de que não havia numa área de aproximadamente trezentos quilômetros ninguém mais preparado que eu para ajudá-las, me encorajava a prosseguir. Lembro-me da primeira vez que isso aconteceu, ainda morava na casa alugada, meu coração disparou. Normalmento era o marido ou o pai que vinham me buscar.Eu acordava rápido, muitas vezes antes mesmo de me chamarem, apenas pelo ruído dos passos. Naquela ocasião, me vesti, peguei meus apetrechos e a lanterna e o acompanhei. Deviam ser duas horas da manhã, a noite envolvia-nos com seus ruídos do silêncio: um galo cantando ao longe, o coachar de um sapo, passos sem dono no cascalho, passos da noite. A casa era pequena, iluminada por velas e, assim como a maioria das casas da região, de adobe coberta com palhas. O quarto não era pequeno, mas se tornava pela quantidade de pessoas que nele circulava, além de cachorros e galinhas que toda hora tinham de ser retirado para, logo em seguida, retornarem. A moça gemia e chorava deitada numa cama baixa, a seus pés, sentada, encontrava-se a parteira, cujas ordens- água pra molhar os lábios da filha, chá de gengibre para acelerar o trabalho de parto- faziam com que a mãe da moça entrasse e saísse a toda hora do quarto. O marido, na cabeceira da cama, sustentando no peito a cabeça da mulher. As vizinhas ajudavam a mãe ou tomavam conta das crianças e os homens ficavam do lado de fora da casa conversando. A luz bruxuleante tornava esse quadro um tanto baço, irreal. Cheguei e fui conversar com a parteira, sentindo os olhares em redor, oscilantes entre a esperança e a desconfiança. Segundo a parteira, o trabalho de parto não avançava há mais de uma hora. Coloquei o pinard para ouvir o coração do neném: forte e ritmico. A dilatação estava quase completa, mas as contrações, realmente, estavam fracas e esparsas. Decidi romper a bolsa para acelerar o trabalho de parto e o fiz assim que aconteceu a contração seguinte. Enquanto isso, a parteira fazia simpatias para ajudar: colocava o chapéu do marido na cabeça da mulher, fazia-o rodear três vezes a casa repetindo uma determinada oração e mais algumas de que não em lembro. Após a ruptura das membranas, as contrações começaram a ficar mais fortes e frequentes e o bebê, enfim, nasceu. Permaneci na casa até o nascimento, mas deixei a parteira conduzir o parto. Após o nascimento, examinei a criança e aspirei as secreções com uma perinha de borracha apropriada e ele chorou alto. A parteira terminava o ritual do trabalho de parto, trocando os lençóis e as roupas da moça para que todos pudessem ver a criança. O pai, a fim de avisar o resto da cidade do nascimento do filho, soltou um foguete com três tiros, se fosse mulher seriam dois apenas. Enquanto uma vizinha preparava um café para todos, voltei para casa. Afirmei que não precisavam me levar, que sabia voltar pra casa sozinha. Grande erro. Apesar da lanterna, a escuridão era total. Só ouvia os latidos e sentia os olhos dos cachorros, brilhando à luz da lanterna. Peguei pedras no chão, ameacei atirar, eles recuaram. Não conseguia encontrar minha casa, passei por ela e não percebi. Comecei a ficar preocupada porque nem sabia mais como retornar à casa do nascimento para pedir ajuda. Finalmente, a calçada de cimento branco ao redor de minha casinha consegui reconhecer. Abri a porta e respirei aliviada e cansada, mas feliz e com a sensação de dever cumprido. Deitei e logo dormi. A noite estava partindo. Ao longe um galo cantava anunciando mais um nascimento, o nascimento do dia.