sábado, 5 de setembro de 2009

PÁSSARO (à minha mãe):



Meu coração bate pequenino, mal o sinto no meu peito oco. Mesmo assim percorro o caminho que me cabe. Dia a dia ouço o sofrimento dos outros, e o meu, quem o ouve?

Enquanto caminho, sinto fluir a tua vida rapidamente. Escapas de ti mesma, minhas mãos já não conseguem te prender à realidade da vida, teu corpo leve mal toca no chão quando andas, pareces um pequeno pássaro, na porta entreaberta da gaiola, pronto para partir para a liberdade. Olhas para nós pedindo ajuda, queres partir, mas te falta coragem. Teus olhos antes assustados vão adquirindo a tranqüilidade do inevitável, meus olhos antes tranqüilos são só desespero contido perante o inexorável.

Continuo meu cotidiano, mas não me afasto de ti, pequeno pássaro. Meus pensamentos voam ao teu lado, afago tua cabeça e massageio tuas costas, toco nos teus ombros tão frágeis, canto músicas que gostas de ouvir e sorris serena. Teu quarto, os CDs, os livros de poesia: todos testemunhas caladas da tua vida.

Seguro com ambas as mãos teu corpinho de ave, não te deixo partir. Não agora. Tenho tanta coisa a falar, mas não escutas mais, teu olhar vago e remoto me diz isso. Tua essência me foge das mãos, me olhas de longe, me desconheces. Te seguro firme, sinto teu coração frágil pulsar, te guardo no meu peito oco, enquanto caminho ninguém te vê, ninguém me vê. Carregar-te-ei para sempre dentro do meu peito, mas teu rosto, tua alma já não fazem parte do cotidiano, não te interessas mais pelas coisas mundanas que antes eram tão tuas. Teu olhar me pede ajuda, minhas mãos tremendo se abrem para a eternidade e deixam-te partir.

domingo, 19 de julho de 2009

ESPERANÇA


A igrejinha

Chegou na Unidade falando alto, alegre e independente. Era um senhor de aproximadamente 70 anos com boa estatura e forte, com uns quilos excedentes visíveis na barriga. Natural de Santa Catarina, mas sua última estadia antes de chegar em Cuiabá havia sido Rondônia, de onde veio para ser pastor de uma igreja evangélica. Moravam ele, a esposa e a neta numa casinha simples de madeira, com dois cômodos, construída no terreno nos fundos da igreja. No dia em que apareceu, quando aferimos sua pressão estava bem elevada, expliquei-lhe a necessidade do tratamento e as possíveis complicações caso não o fizesse. Seu P. após dar-me um sorriso balançou a cabeça negativamente e falou: -Não vou tratar não doutora, não precisa, Deus cuida de mim. Argumentei: -Deus tem mais coisa o que fazer, por isso delegou ao homem essa tarefa. Não o convenci. Disse-me que eu não tinha fé bastante para acreditar que Deus o curaria. Despediu-se com um sorriso condescendente. Os meses se passaram e seu P., mesmo frequentando a Unidade com sua esposa, continuava recusando o tratamento. Um dia chegou-me a notícia de que ele havia sofrido um AVC (derrame) durante a noite e havia sido internado. Permaneceu durante aproximadamente 1 mês no hospital, vindo a receber alta com sequelas relevantes. Fui visita-lo assim que voltou pra casa. Deitado, com paralisia de um lado do corpo, transformare-se em homem franzino e dependente. Ao me ver começou a chorar e balbuciar frases desconexas, de impossível entendimento. Tentei acalma-lo dentro de sua fé, mas seus olhos eram só desespero. Não conseguia e nem precisava falar, seus olhos fizeram esse papel. Os meses que se seguiram foram difíceis, pois teve que repetir exames e ir a diversos especialistas e tudo isso dependia de ambulância, cadeira de rodas e acompanhantes e, como nem sempre conseguíamos que chegasse na hora marcada,muitas vezes acabava não sendo atendido. Acontecia de o profissional ainda estar no serviço e se recusar a atendê-lo por causa do atraso, resultando em atritos constantes entre a Unidade e os serviços de Atenção Secundária. Mais tempo se passou e a Igrejinha, agora fechada, não tinha mais fiéis, o pastor, que antes lhes levava conforto através da palavra de Deus, agora estava prisioneiro de seu próprio corpo, deitado numa cama, ali, bem perto.Dessa vez, era ele quem precisava de uma palavra, de um alento, precisava de toda a sua fé. Aos poucos foi ficando mais prisioneiro: seus membros foram atrofiando por causa da falta de fisioterapia, que não pôde fazer pela dificuldade de condução. Conseguimos que a fisoterapeuta fosse algumas vezes em sua casa, mas isso pouco adiantou. Continuava chorando quando eu ia visita-lo, agora pedia para voltar para sua terra, perto de seus parentes. Tentei, através de uma reportagem em um jornal da cidade e cartas para as Secretarias de Promoção Social do Estado e Município, conseguir passagens para ele, a mulher e a neta embarcarem para Santa Catarina, mas nada consegui. Continuou ali, deitado no seu canto, bem tratado pela família, mas infeliz. As lágrimas continuavam escorrendo quando me via, e eu, sem respostas, sem nada para dar-lhe, apenas o conforto de uma voz amiga. Hoje sua Igrejinha voltou a funcionar sob o comando de um novo pastor, com suas bênçãos, e ele teve uma infecção de pele que evolui de forma rápida para uma necrose. Está internado e deverá sofrer uma amputação, provavelmente de parte do pé. Sua esposa não queria interna-lo apelando mais uma vez para Deus, dessa vez fui mais dura e incisiva e consegui demovê-la da ideia de tratá-lo em casa. Passo pela Igrejinha, agora em reforma,entro, e, enquanto os pintores fazem seu serviço, olho para o crucifixo preso à parede e lembro da fé de seu P., a fé que o fazia viver a vida sem enxergá-la, que o fazia encontrar explicações para tudo, mas que agora não consegue dar-lhe paz. Olho para o cruxifico e vejo um Deus tão próximo e tão distante, que exige sacrifícios de quem viver já é um sacrifício, com a promessa de um paraíso, quiçá diferente deste. As Igrejas se multiplicam nos bairros pobres, multiplicam-se porque espalham esperanças, sejam elas verdadeiras ou não, isso não importa. Multiplica-se a fé em uma vida melhor. Se o fizerem por merecer, quem sabe? Mas essa esperança é o que os alimenta, que os leva a trilhar o dia a dia da desesperança, nas ruas poeirentas da realidade. A fé é uma promessa de um sonho não vivido, de uma vida negada. A esperança que se dissolve e escorre em lágrimas pelo rosto de P., deixando seus olhos vazios e delirantes, suplicando ajuda. Suplicando talvez pelo sonho que não sonha mais, suplicando talvez pela vida que não vive mais.

domingo, 14 de junho de 2009

O PARTO


Minha casinha em Cascalheira


As noites de Cascalheira, quando não eram de lua, eram escuras, muito escuras. Dez da noite, o motor a disel, única fonte de energia da cidade, era desligado e restava a escuridão. As luzes bruxuleantes das velas, das lamparinas e dos lampiões a gás iluminavam o interior das casas e lá fora as pessoas recolhiam as cadeiras das portas, onde há pouco conversavam com os vizinhos, contando casos, ás vezes ao som de uma viola, tomando um cafézinho passado na hora. As crianças que ainda brincavam, tal como as cadeiras, também eram recolhidas, as casas se trancavam e, aos poucos, o sons das vozes iam sumindo, iam se apagando junto com as luzes. Eu já havia me habituado a essa rotina. Ficava conversando com os vizinhos ou lendo até o sono chegar, antes da escuridão reinar. Eu dormia cedo, porque não sabia se dormiria a noite toda. Ela era sempre um mistério para mim, escondendo em suas sombras histórias de dor e de alegria. Nas noites sem lua, a vontade era olhar para o céu, onde se acendiam as estrelas disputando entre si um lugar naquele pedaço de firmamento. Eu já havia comprado minha casinha de adobe, num ranchinho, o chão de terra batida, cobertura de palha. Tinha quatro cômodos e o banheiro ficava do lado de fora. Decorei minha casa com artesanatos indígenas e de artesão da região, com redes, esteiras, cestos de palha e baús de couro. No meu quarto, uma cama de casal antiga, de ferro batido, presente de um amigo, e um armário compunham a decoração e duas janelas grandes, uma dando para a rua, a outra para o sol. De manhã, bem cedo, pegava um pouco de café em grão, já torrado, e ia até a casa de Dona Naíde, a vizinha, a fim de moê-lo. Lá não existia padaria e quem quisesse comer pão tinha que fazê-lo e era o que acontecia. Todo mundo fazia pão, menos eu. Contentava-me em esperar as vendedoras, com suas cestinhas repletas de pão quentinho. Ás vezes ganhava também de amigos e vizinhos. Minhas noites eram sempre imprevisíveis: a qualquer momento alguém poderia bater na minha janela para alguma emergência. Nos meus primeiros dias lá, esse chamado era o que eu mais temia. Nas maioria das vezes se tratava de gestantes em trabalho de parto que, acompanhadas por parteiras experientes, me davam o sinal de que alguma coisa não ia bem e esse era meu medo. Lembrava-me sempre do que meu professor de obstetrícia dizia: "A maioria dos partos são normais, mas quando complica é sempre emergência". E sobre o assunto só o tinha visto quando estudante, porque depois de formada fiz residência médica em infectologia e saúde comunitária e fazer um parto em domicílio que podia ser complicado, sabendo que o hospital mais próximo ficava a trezentos quilômetros de distância, e sem ninguém pra me ajudar, a não ser meu conhecimento teórico, alguns instrumentos cirúrgicos básicos que mantinha esterelizados, era de amedrontar qualquer um. No entanto, a certeza de que não havia numa área de aproximadamente trezentos quilômetros ninguém mais preparado que eu para ajudá-las, me encorajava a prosseguir. Lembro-me da primeira vez que isso aconteceu, ainda morava na casa alugada, meu coração disparou. Normalmento era o marido ou o pai que vinham me buscar.Eu acordava rápido, muitas vezes antes mesmo de me chamarem, apenas pelo ruído dos passos. Naquela ocasião, me vesti, peguei meus apetrechos e a lanterna e o acompanhei. Deviam ser duas horas da manhã, a noite envolvia-nos com seus ruídos do silêncio: um galo cantando ao longe, o coachar de um sapo, passos sem dono no cascalho, passos da noite. A casa era pequena, iluminada por velas e, assim como a maioria das casas da região, de adobe coberta com palhas. O quarto não era pequeno, mas se tornava pela quantidade de pessoas que nele circulava, além de cachorros e galinhas que toda hora tinham de ser retirado para, logo em seguida, retornarem. A moça gemia e chorava deitada numa cama baixa, a seus pés, sentada, encontrava-se a parteira, cujas ordens- água pra molhar os lábios da filha, chá de gengibre para acelerar o trabalho de parto- faziam com que a mãe da moça entrasse e saísse a toda hora do quarto. O marido, na cabeceira da cama, sustentando no peito a cabeça da mulher. As vizinhas ajudavam a mãe ou tomavam conta das crianças e os homens ficavam do lado de fora da casa conversando. A luz bruxuleante tornava esse quadro um tanto baço, irreal. Cheguei e fui conversar com a parteira, sentindo os olhares em redor, oscilantes entre a esperança e a desconfiança. Segundo a parteira, o trabalho de parto não avançava há mais de uma hora. Coloquei o pinard para ouvir o coração do neném: forte e ritmico. A dilatação estava quase completa, mas as contrações, realmente, estavam fracas e esparsas. Decidi romper a bolsa para acelerar o trabalho de parto e o fiz assim que aconteceu a contração seguinte. Enquanto isso, a parteira fazia simpatias para ajudar: colocava o chapéu do marido na cabeça da mulher, fazia-o rodear três vezes a casa repetindo uma determinada oração e mais algumas de que não em lembro. Após a ruptura das membranas, as contrações começaram a ficar mais fortes e frequentes e o bebê, enfim, nasceu. Permaneci na casa até o nascimento, mas deixei a parteira conduzir o parto. Após o nascimento, examinei a criança e aspirei as secreções com uma perinha de borracha apropriada e ele chorou alto. A parteira terminava o ritual do trabalho de parto, trocando os lençóis e as roupas da moça para que todos pudessem ver a criança. O pai, a fim de avisar o resto da cidade do nascimento do filho, soltou um foguete com três tiros, se fosse mulher seriam dois apenas. Enquanto uma vizinha preparava um café para todos, voltei para casa. Afirmei que não precisavam me levar, que sabia voltar pra casa sozinha. Grande erro. Apesar da lanterna, a escuridão era total. Só ouvia os latidos e sentia os olhos dos cachorros, brilhando à luz da lanterna. Peguei pedras no chão, ameacei atirar, eles recuaram. Não conseguia encontrar minha casa, passei por ela e não percebi. Comecei a ficar preocupada porque nem sabia mais como retornar à casa do nascimento para pedir ajuda. Finalmente, a calçada de cimento branco ao redor de minha casinha consegui reconhecer. Abri a porta e respirei aliviada e cansada, mas feliz e com a sensação de dever cumprido. Deitei e logo dormi. A noite estava partindo. Ao longe um galo cantava anunciando mais um nascimento, o nascimento do dia.

sábado, 23 de maio de 2009

OUTRA MARIA

Conhecia-a há uns dez anos, Maria dos olhos azuis-água, levando seus filhos, que eram cinco, com freqüência à Unidade para eu consultar. Contradizendo os escandalosos olhos, era um pessoa calada e humilde e seus filhos, apesar da simplicidade das roupas, estavam sempre bem arrumados. Sua casa era pequenina e no meio de um terreno que conservava, assim como a seus filhos, limpo e cuidado.
Numa consulta de rotina, ansiosa e desconfiada, Maria começou a falar coisas que não eram de seu feitio discreto e quando tentei dar continuidade ao assunto, a fim de entendê-la, calou-se encerrando a conversa e a consulta. Poucos dias depois chegou-me a notícia de que ela e sua família haviam se mudado do bairro. Meses se passaram até que recebi a inesperada visita do marido de Maria. Estavam morando numa região rural perto da cidade e viera me procurar porque, segundo ele, a mulher tinha "enlouquecido": falava coisas desconexas, fugia de casa, passando, ás vezes, o dia inteiro desaparecida e deixava os filhos pequenos sozinhos. Ao chegar do trabalho e encontrar esse cenário, saia para procurá-la, dia após dia. Desorientado, não sabia o que fazer e assim resolveu voltar ao bairro para poder cuidar da saúde dela.
Dois ou três dias depois, trouxe-a até mim. Estava mais magra e o cabelo, outrora sempre preso e arrumado, quedava-se despenteado. No consultório, ficou de cócoras no canto da sala e não falava. Aproximei-me dela e a chamei pelo nome, me encarou rapidamente com os olhos azuis estranhos e agitados, estendi minha mão e pedi para que se levantasse e ela obedeceu calada. Não tive dúvidas de que era um surto psicótico e que precisava urgentemente de ajuda, assim como sua família. O marido foi demitido do emprego por causa de suas constantes faltas, cometidas para cuidar dela e dos filhos. Estes, por sua vez, assustados, sentiam falta da mãe e mal tinham o que comer. Encaminhei Maria para tratamento especializado e, até que as coisas se normalizassem, a equipe da Unidade ajudou a família com cestas básicas, roupas e outras coisas que necessitavam.
Iniciou o tratamento e com ele apareceram os efeitos colaterais dos medicamentos e a melhora lenta e gradual. Enquanto isso, seus filhos, crianças entre cinco e dez anos, assumiram a postura de pais enquanto à Maria foi relegado o papel de criança, de filha: davam-lhe os remédios e levavam-na pelas mão até a Unidade para se consultar, além de realizarem todas as tarefas domésticas sem deixar, no entanto, de estudar. O marido voltou a trabalhar e passava o dia todo fora.
Apareceu-me um dia Maria com os filhos e, ao dirigir-se a mim, olhei no azul de seus olhos e reencontrei-a. Tinha voltado e dessa vez era ela quem trazia os filhos pelas mãos. Voltara a ser mãe e eles, crianças. Dava impressão de ter retornado de uma longa viagem e simplesmente retomado a vida de onde havia deixado. Não sei que lembranças tem desse tempo, nem onde estava durante esse período, mas retornou e impôs a seu outro eu, agitado e confuso, o silêncio, assumindo seu lugar de mãe, de mulher, forte e serena como sempre fora. No olhar azul celeste, lampejos de insanidade.

terça-feira, 21 de abril de 2009

MENINOS

Hoje mais um jovem se foi. Para a maioria das pessoas que leram o jornal essa manhã, mais um no meio de tantos.Tantos Joãos, tantos Josés...
Alguns ainda arriscam, em vez de um "mais um", um "menos um, bandido tem mesmo é que morrer".
Vê-lo cair, abatido como um animal, ou pior que um animal, deixa claro meus limites. Seus olhos sem olhares, vazios de alma, não são únicos. São velhas as histórias que se repetem: pais trabalhando, filhos desassistidos e aí o chamado irresistível das ruas, das drogas, da morte. Ano após ano, o mesmo enredo sangrento com fim trágico. E mesmo assim assistimos calados, como crianças que ouvem uma estória de terror e dormem assustadas até o dia em que, de tanto ouvi-la, não mais assustadas, apenas dormem.
Lembro-me do seu rosto na última conversa que tivemos. O ruído do riso permanece nos meus ouvidos. Agora, carrego mais uma morte. São tantas. São tantos os rostos que me sorriem meninos, tantos os rostos. Os políticos discutem sobre a próxima copa do mundo e os meninos morrem. As pessoas se revoltam por uma fatalidade em específico e, na periferia, os meninos morrem todos os dias. Ninguém se comove, ninguém se indigna. Foram crianças como os nossos filhos, como os nossos netos, que iam à escola e gostavam de jogar bola e soltar pipa, apenas trilharam caminhos diversos: os caminhos que lhes pareciam mais promissores, que lhes permitiam experimentar a falsa sensação de poder e liberdade emprestada pela droga. Sentiam-se fortes e poderosos, achavam que eram o que não eram e o que nunca seriam. Só eram meninos que se perderam no meio do caminho da vida. Vejo-os nascerem, crescerem e tento alertá-los, mas a minha voz é fraca e meu discurso distante e solitário, o dia a dia nos becos do mundo lhes oferece respostas mais rápidas para sua necessidades. As ações do Estado não conseguem penetrar nas ruelas escuras do bairro, não transformam seu cotidiano, apenas matam a fome e sufocam a dignidade.
Os caixões de papelão saem das casas humildes e as mães choram por seus meninos. Só elas choram. Fossem o que fossem, fizessem o que fizessem, meninos perdidos, meninos drogados, sim, mas apenas meninos.

sábado, 18 de abril de 2009

ADAPTAÇÃO

Indo fazer um parto domiciliar


Assim que cheguei a Ribeirão Cascalheira, levaram-me à Casa dos Padres, morada dos sacerdotes, freiras, incluindo Bia (a enfemeira que serviu de ponte entre mim e a nova vida), e agentes da pastoral. Encantei-me com a casa de adobe, coberta por palha, como a maioria das casas da região, e muito acolhedora. Receberam-me muito bem e lá passei a minha primeira semana, enquanto esperava uma casa onde pudesse morar. O primeiro choque de realidade aconteceu quando, no banheiro, deparei-me com um buraco no chão em lugar de vaso sanitário. No momento primeiro me recusei a utilizá-lo, até que não tive outra saída. Era o início de uma série de conflitos pessoais por quais eu passaria.
Mínima, a cidade acompanhava o trajeto da Br 158, que era sua avenida principal, responsável por cortar a cidade de fora a fora. Havia pequenos comércios, uma escola municipal, uma delegacia e um posto de saúde estadual, onde, afinal, eu iria trabalhar. A luz elétrica de toda a cidade provinha de um motor a diesel que volta e meia dava problema e que funcionava apenas no limitado horário das aulas noturnas, das 19h às 23h: quatro horas por dia. Não havia correio, nem telefone. Água encanada, então, nem pensar. A água utilizada tinha origem em cisternas, existentes em todas as casas, que não eram em sua maioria imunes à seca.
Durante essa primeira semana, Bia me levou para conhecer as lideranças da cidade e o posto de saúde. Pequeno e abandonado pelas autoridades, a unidade contava com móveis e equipamentos, em sua maior parte, doados pela população ou pela igreja. Não havia enfermeiros, tampouco auxiliares de enfermagem, apenas três joves contratados pela SES como agentes de limpeza, mas que estavam sendo treinados por Bia para desempenharem também a função delegada, naquela época, aos atendentes de enfermagem. Treinamento esse que continuei. Mais tarde frequentariam o curso oferecido pela Secretária de Saúde para terem o título por direito.
Passada a primeira semana e as primeiras impressões, mudei-me. De alvenaria e quatro cômodos, minha casa era uma das melhores da região e tinha por vizinha da frente a república dos professores, a maioria deles vindos de Belo Horizonte, através de contatos com a Prelazia, para lecionar no período noturno da escola.
Em meu primeiro dia de trabalho, toda a cidade apareceu no posto para se 'consultar' comigo na ânsia de conhecer a nova médica. Trabalhei o dia inteiro, só parando para almoçar na casa de um morador. No fim da tarde, louca para tomar um banho e descansar, me deparei com o problema de não ter comprado corda, nem balde, além de não ter mandado 'esgotar' a cisterna, de forma que a água encontrava-se suja e, assim, imprópria para uso. Ninguém tinha me avisado da necessidade de se providenciar essas coisas. As únicas pessoas com quem tinha intimidade eram a Bia e o pessoal da igreja, mas a casa deles era longe e já estava escurecendo. Desanimada e sem saber o que fazer, entrei em casa e encontrei um problema infinitamente maior na parede: uma aranha enorme, que provoca em mim uma quase fobia. Com o coração acelerado, corri para o quarto e tranquei a porta. Foi a primera vez em que senti vontade de chorar, com saudade do meu quarto, do conforto da minha cama, do chuveiro elétrico, detalhes que antes atuavam desapercebidos em minha vida e que agora me faziam tanta falta. Como trilha sonora desse singular momento, as vozes dos profressores, acompanhada do violão, se avizinhavam. Sabendo que as aulas ainda não tinham começado, resolvi ir até lá pedir ajuda. Receberam-me muito bem, convidando-me a sentar, e logo estava cantando com eles. Quando me senti mais à vontade, contei-lhes os problemas e eles prontamente me ofereceram o banheiro para que eu tomasse banho e uma rede pra dormir, longe da aranha. Propuseram-se também a procurar a aranha no dia seguinte. Aceitei sem pestanejar. Dormi um sono profundo de satisfação.

ADAPTAÇÃO- PARTE II


Eu conversando com paciente
na U.S de Cascalheira



Saindo de cena os problemas de natureza doméstica, passei a enfrentar os relacionados ao trabalho, além dos estruturais, que iam da falta de água e luz à falta de equipamentos. No primeiro mês fui acordada sistematicamente de duas a três noites por semana para atender casos que, em sua maioria, não eram de qualquer urgência. E para isso também fui tirada muitas vezes da mesa do almoço. Dores de cabeça, gripe, coceira no corpo e outras coisas rotineiras constituiam quase a totalidade dos chamados em horas impróprias, que aconteciam por comodidade ou por não terem claro qual era o meu papel ali. Cansei-me e lembrei vividamente do conselho me dado por Bia antes de ir embora: "Coloque limites e horários de atendimento para que o povo deixe você descansar. Se não o fizer, vai desistir."
Segui o conselho e passei a atender fora do horário só o que era realmente urgente. Essa atitude, claro, teve reações: a população começou a reclamar para o pessoal da Prelazia, que julgavam responsável por minha vinda. No contexto em que nos encontrávamos, fim da ditadura militar, nos trabalhos populares, principalmente os realizados pela igreja católica através das pastorais, prevalecia a opinião popular, mesmo quando injusta, como uma espécie de retratação pelos vinte anos de silêncio que a Ditadura conferiu ao povo. Era natural que isso acontecesse, na ânsia de contrapor o regime militar, processo que mais tarde amadureceu. Por achar uma prática muito paternalista, discordava dela e não abri mão do que eu considerava justo.
De passagem pela cidade, o bispo Pedro casaldáliga veio conversar comigo e em certa altura disse:



_Você tem que ter paciência com o povo.
Ao que revidei:


_Não, bispo, o povo é que tem que ter paciência comigo. Quem deixou o conforto de casa, a família e os amigos fui eu.
Com a sabedoria que lhe é peculiar, olhou-me e balançou a cabeça concordando.
Dei-me um tempo de seis meses para que as pessoas se adaptassem a mim e eu a elas. Se ao fim desse período essa relação fosse impossível, eu admitiria meu erro, mas iria embora. Não saberia trabalhar da forma que eles queriam. Contei minha decisão ao padre que mais se fez meu amigo. Enfim, após os seis meses, as pessoas só me procuravam em noites de emergência, respeitavam meu horário de almoço e participaram comigo da criação de uma Comissão de Saúde( equivaleria hoje a um Conselho Gestor) superatuante, que me ajudava a resolver os problemas da Unidade, e do primeiro curso para Parteiras Leigas, com apoio da SES.
Fiquei e finquei minhas raízes naquele solo pedregoso e vermelho. Aos poucos, assimilei o jeito de viver daquele povo, o "Siá" que usavam para dirigir-se a mulheres. Compreendi as lavadeiras indo labutar no córrego e voltando nos fins de tarde com a trouxa na cabeça e os filhos nas mãos. Tomei parte do forró de sábado na casa do Satú, da luta violenta que se travava pela terra, do amor das parteiras que faziam seu trabalho sem cobrar nada por ele, das serestas noturnas à porta das casas. Aprendi a admirar o trabalho da Prelazia e reconhecer que existiam realmente religiosos que fizeram opção pelo lado mais fraco, vivendo de forma humilde tal como o povo.
Esse trecho da minha vida foi uma experiência intensa e bela. Faz parte da minha história, ajudou na minha construção como ser-humano, ponteou a minha personalidade. Anda comigo e se faz presente em cada decisão que tomo. Carrego, hoje e sempre, a terra vermelha que manchou meus pés, porque também marcou minha alma.